21/09/2011

FANZINES: Expressão e resistência

Por Cledson Bauhaus | @cledsonbauhaus

Olá pessoas, estou aqui mais uma vez para apresentar mais um dos tesouros escondidos da minha batcave. O que carrego comigo hoje é algo muito especial, não só no lado pessoal, mas também para toda a comunidade subcultural: são os fanzines.

Seu nome é uma abreviação de “fanatic magazine” e trata-se de uma publicação independente, feita a mão, com menor tiragem e circulação, direcionada a um publico específico, normalmente bem pequeno comparado às publicações comerciais. No fanzine tradicional, reina a cultura do “faça você mesmo”, também presente na comunidade gótica. Seu maior diferencial é o fato de ser uma produção de “fã para fã”.


O fanzine já foi o principal meio de comunicação das tribos urbanas (hoje tem perdido bastante espaço para a internet) e representa uma forma de resistência diante dos meios de comunicação de massa e as generalizações feitas pelos maus entendedores desses grupos. Ele é a voz de cada tribo, carregando não somente informações gerais e novidades sobre sua cultura, mas também carregam fortes ideais políticos. Existem diversos tipos de fanzines, e os assuntos são muito variados: música, poesia, literatura fantástica, ilustrações, histórias em quadrinhos, entre outros, possuindo um foco diferenciado dependendo de sua proposta, fazendo deles verdadeiros objetos de coleção para os participantes das subculturas.

Esses são alguns dos que possuo aqui comigo:
Desde o meu primeiro contato com eles, tenho conhecido diversos fanzines, cada um com o seu valor especial. Mas gostaria de destacar as seguintes publicações:

O fanzine De Profundis, que além de valiosas informações sobre a subcultura gótica, trazia também coletâneas com bandas nacionais (a Brazilian Darkwave), incentivando a produção cultural e musical dentro desta comunidade;

A Revista Carcasse (link), que se enquadra no formato mais atual de migração dos fanzines para internet, possui um vasto conteúdo sobre arte obscura e interatividade entre os públicos;

O Anuário de Fanzines (link), uma grande iniciativa de catalogação a nível nacional de fanzines diversos, possibilitando o contato e interatividade entre os produtores desse meio cultural;

O Zinescópio (link), uma coleção digitalizada de fanzines acessível via internet com downloads e compartilhamento online. É possível colaborar com a coleção enviando scanns de fanzines em formato pdf para publicação;

E por ultimo, mas não menos importante, o Spell Work (link), de Thina Curtis, que possui formato tradicional, conteúdo bem amplo e está em plena atividade. Aliás, a Thina é uma grande agente cultural e defensora dos fanzines. Ela possui uma grande experiência com fanzines e a comunidade gótica, e nesse post compartilha conosco um pedacinho de sua vida na mini entrevista a seguir:
Olá Thina, primeiramente agradeço a colaboração e confesso ser um grande fã dos seus trabalhos e atividades na cena. É uma honra ter ter você por aqui. Por favor, conte-nos um pouco sobre você e como foi o seu interesse pela subcultura gótica.

Obrigada Cledson! É um prazer eu estar respondendo estas questões. Sobre mim acho que as maiorias das pessoas, pelo menos a maioria que circulam pelo meio alternativo conhecem ou já ouviram falar. Mas resumindo, sou Thina Curtis: mãe do quarteto fantástico, poetisa, arte-educadora, documentarista e FANZINEIRA com muito orgulho e amor!

Edito o fanzine Spell Work a quase oito anos, já editei inúmeros fanzines, colaborei de outros tantos outros, também já fui redatora da Revista Central Rock.

Minha inserção na cultura gótica creio que surgiu desde a infância. Eu era uma espécie de Vandinha (Família Adams). Rsrs. Eu sempre adorei ler, sempre fui apaixonada por música, então sempre vivi mergulhada em livros de contos, histórias, poesias e depois fui descobrindo outras literaturas e me identificando. Meu pai teve muita culpa nisso, ele lia muito e era apaixonado por artes, sempre me levava a shows, museus. Em casa sempre tivemos muitos livros e quadrinhos. Logo descobri os livros que vieram a ser meus de cabeceira: Nietszche, Pablo Neruda, Victor Hugo, Maiakoviski, Cruz e Sousa, aí ferrou...

Em casa também por influência do meu pai escutávamos muito rock, em especial Elvis. Então sempre tive uma raiz musical mais rocker, mas meu primeiro contato físico com a cena dark foi mesmo através de uns amigos que tinham banda e faziam um projeto chamado Euthanasia no extinto Madame Satã. Lembro até hoje dos primeiros acordes do The Cure, que até então nem imaginava quem eram, era tudo muito novo, mais a paixão mesmo foi descobrir Joi Division, até hoje me emociono ao escutar. é muito intenso para mim. E também era o clima do lugar, as pessoas que frequentavam tinham um visual diferente, era aquilo que eu queria ser (rsrs). Para o desespero da minha mãe e da minha família, no outro dia estava toda de preto... Mais aí fui correr atrás de conhecer tudo aquilo que era praticamente outro mundo, outra realidade. A princípio o estilo (roupas acessórios) e música, depois fui descobrindo a cultura.

Hoje existe um grande contraste entre os antigos membros dessa comunidade e essa nova geração. Como você avalia essa transformação. Existe crescimento cultural?  

Acho que as pessoas quando gostam de algo e vem isso como estilo de vida é para sempre, pelo menos comigo aconteceu assim. Independente de estar indo para a balada X ou Y atual, e andar em um visual A ou B. É algo que se sente e pronto.

Claro que temos que levar em conta como tudo mudou, se você pensar em 20 anos atrás. A falta de informação, o acesso tão fácil a cultura, shows, as ferramentas para usar. Porém hoje mesmo tudo estando tão fácil e acessível as pessoas se acomodaram e não correm atrás, não filtram tanto as informações. Em partes, ainda existe pouco crescimento se você analisar, por exemplo, o Chile que é um país pequeno e existe uma cena forte acontecendo, e o mais importante, as pessoas que frequentam realmente apoiam. Aqui ainda existe uma cultura de endeusar o que vem de fora, e em muitos casos os caras não tão nem ai, só querem a grana mesmo. Não que não tenhamos que curtir, conhecer, mais são questões de valores mesmo.


Fale das suas experiências com os fanzines, o nascimento do Spell Work e sobre os eventos que atualmente tem incentivado as atividades fanzineiras.

Bom, se fosse falar das minhas experiências com os fanzines daria um livro (rsrs), mas para mim começou com colagens e poesias, mesmo porque eu não tenho talento nenhum para desenho. Então comecei a inserir também letras de músicas que eu me identificava, mais tarde informações. Depois fiz e participei de vários fanzines punks, acho até pela identificação e pelos zines punks conterem um teor mais social mais atuante e revolucionário.

O Spell Work veio em um momento em que eu estava abandonando os zines. Estava cansada de muita coisa errada. O Fanzine é algo que para mim, tem que ser feito sem pretensões de dinheiro, status, e o ser humano é cheio de egos e isto muitas vezes incomoda, pelo menos a mim. Nesse momento um grande amigo O Edson F. (Modem) me propôs de lançarmos um projeto, algo que se parecesse conosco, ele também fazia zines e temos muita afinidade, então lançamos o Spell Work, e o que seria uma edição uma brincadeira se transformou em algo que hoje perdemos o controle (rsrs). A primeira edição tinha 8 páginas e as últimas edições 44 páginas. Temos duas coletâneas musicais lançadas, a primeira chamada Gênese, a segunda recente, chamada In Vitro, tivemos que adaptar para o formato Mp3 porque foram muitos trabalhos legais que recebemos, inclusive vários de outros países. Estamos indo para a terceira coletânea agora.

O incentivo aos fanzines não é de hoje, sempre tento apoiar artistas, seja zineiro ou não, depois que você faz fanzine isto se torna um vicio! Os eventos do Spell Work, mesmo no inicio, nos lançamentos sempre fazíamos exposições com desenhos, quadros, fotografias, HQs, poesias, contos, performances, saraus, e claro outros fanzines. A ideia é: somar, multiplicar, compartilhar! Também apoiávamos bandas, DJs, conseguíamos alimentos, roupas, brinquedos para doar em instituições locais, e é isso o mais prazeroso em se fazer fanzines! Você acaba conhecendo pessoas, tendo muitos contatos e se tornando uma pessoa melhor.

O mais recente evento, creio que já é um registro na história dos fanzines: o Fanzinada. Aconteceu aqui em Santo André no espaço cultural Gambalaia, comemoramos o dia internacional do Fanzine (dia 29 de abril) reunimos artistas de várias linguagens e foi tudo muito natural e tranquilo, todos colaboraram e incentivaram foi inesquecível! Deu tão certo que, dia 24/09 agora, estarei indo para Goiânia e o evento vai reunir pérolas do cenário underground como o grande escritor e poeta Ricardo Chacal, Oscar Fortunato entre outros. Sei que esta acontecendo uma mobilização de zineiros de Brasília, RJ e MG para Goiânia e já temos projeto para outros locais pelo Brasil. Aguardem! Também peguei alguns editais públicos para fanzines, trabalho com oficinas de fanzines aplicando arte educação, e utilizo os fanzines como ferramenta política educacional e cidadã.

Estou também gravando um documentário sobre arte educação, outro que ainda é sigilo e escrevendo um artigo sobre fanzines para um livro sobre arte educação, lendo umas propostas e seguindo em frente, que a vida não para!

Como você enxerga a relação Moda / Música nas cenas undergrounds? Você já abordou esse tipo de relação no seu fanzine?

Eu acho que a moda é uma estética livre, você faz seu estilo, você expressa sua personalidade mesmo sem ter uma pretensão. É aquela coisa de se você estar feliz e se vestir assim, e se esta triste se veste de outra forma, se esta apaixonado...  Enfim, o ser humano tem dessas coisas e claro isso reflete no vestuário.

É claro que as pessoas também muitas vezes rotulam e julgam muito pela aparência, principalmente as de traje. Como são o caso das tribos urbanas onde se julga pela roupa se julga sem saber ou conhecer o que realmente pensam estas pessoas. O ruim é que isto também não devia acontecer, já que vivemos numa suposta Democracia. Em países como Japão, EUA, etc, isto é normal, e nós aqui temos o mesmo ritmo, mas ainda temos muitos tabus para enfrentarmos. Acho que a roupa é para você se sentir bem, depende do seu humor enfim o estilo para complementar sua identidade. Creio que também temos que ter senso, porque muitas vezes o trabalho exige que você se vista assim ou assado. As vezes vejo aquele calor de 40 graus e a galera de casaco de couro, acho que devem ser térmicos né? Ora, dá pra adaptar um visual para nosso país! Afinal, não somos europeus né gente? Somos latinos, calientes! Só no inverno da pra abusar das vestimentas pesadas!

No Spell Work nunca abordamos, embora na última edição fizemos uma resenha de um espaço que através de cursos ligados a moda, capacita profissionalmente mulheres e pessoas da comunidade na zona sul de São Paulo que se identifiquem, achei isso muito legal! Eu adoro estar bem comigo mesma e a roupa transmite isso, gosto de mesclar peças atuais com coisas que garimpo em brechós. Adoro isso! Tenho amiga (os) que trabalham com moda, então essa relação é meio familiar para mim. A moda é uma arte que acompanha toda nossa história desde a época paleolítica.


Por fim, deixo esse espaço aberto para falar o que desejar. Muito obrigado querida ;)

Quando li essa questão fiquei imaginando que não tinha nada mais para falar, mas a verdade é que sempre temos algo para acrescentar. Creio que principalmente nós, pessoas comuns que gostamos de arte, cultura e também produzimos arte, é nossa obrigação transmitir e fazer cidadania de alguma forma.

O mundo está um caos, as pessoas não se respeitam e para onde você olhe é miséria, morte, guerra, preconceitos e intolerância, crimes hediondos e impunidade. Políticas que não funcionam. Temos que enxergar todos como uma raça só, a HUMANA. Que não sejamos diferentes pela cor, pela religião, pela opção sexual e sim iguais, pelo caráter, pelos direitos e deveres. Precisamos valorizar o que temos, ajudar sempre que possível.

Às vezes fico imaginando, existem tantas pessoas que em um final de semana daqueles que a galera não tem nada para fazer e ao mesmo tempo tem tantos albergues para idosos, orfanatos, hospitais lotados de pessoas abandonadas e em situação indigna que precisam de algo que nem é dinheiro é simplesmente uma coisa, afeto, para poder continuar a lutar e ter esperança. Pessoas que se mobilizem de repente, um músico com seu violão, um ator, uma contação de história, uma brincadeira ou simplesmente só conversar mesmo. Temos que parar de só nos mobilizarmos quando acontecem tragédias, mais sempre que for possível fazer disso um hábito. Quantas pessoas carentes necessitam de apoio básico, como roupas, sapatos, direitos básicos que podemos ajudar e mesmo assim é muito pouco e claro o Estado e a Política não enxergam, afinal são somente estatísticas. Enquanto isso, continuam dando esmolas, as pessoas precisam de dignidade, trabalho, habitação, educação, saúde, arte, cultura e lazer. Todos têm direito a ter uma vida digna, o estatuto dos direitos humanos pelo menos diz isso... Este é o verdadeiro espírito Faça você mesmo, quem quer fazer algo, faz, não espera! Desculpe o desabafo mais eu acho que é isso!

Quero agradecer a você, Cledson, pelo convite e por apoiar os fanzines; Aos leitores do Spell Work, que são minha maior inspiração para continuar com o SW, mesmo com tantas dificuldades do cotidiano; As pessoas que nos enviam seus trabalhos, projetos, matérias, criticas, etc ; E a minha equipe fantástica, que já se tornou uma família: Edson F., Marian Schwarz, Marcus Asbarr, Rosangela e Mike (Glassbox), é NOIZEEEEE!

Thina Curtis
Contatos: thinacurtis@hotmail.com | oficinadefanzine@gmail.com
Blog: www.spellworkfanzine.blogspot.com
Facebook: Thina Curtis | Spell Work Fanzine


Acerca de estudos sobre os fanzines, quero recomendar as seguintes leituras:

Almanaque de fanzines, o que são, por que são, como são: Guimarães, Edgard.

A mutação radical dos fanzines: Magalhães, Henrique.

Dos fanzines aos Weblogs: Uma análise sobre as semelhanças e difeerenças entre os dois suportes: Silva, J.A.B

Bem, chegamos ao fim. Um grande abraço! Igualdade, respeito e paz a todos =) 


Acompanhe nosso Twitter: @modanamusica e Curta-nos no Facebook: www.fb.com/modanamusica Assine o nosso Feeds e receba as atualizações do blog diretamente no seu leitor de feeds ou email


0 comentários:

Postar um comentário